sábado, 4 de abril de 2009

As cidades e o céu. 3

Quem chega a Tecla,pouco vê da cidade,por detrás dos tapumes de madeira,dos abrigos de sarapilheira,dos andaimes,das armações metálicas,das pontes de madeira suspensas por cabos ou seguras por cavaletes,dos escadotes,dos postes. À pergunta : - Porque demora tanto tempo a construção de Tecla? - os habitantes sem deixarem de içar baldes,de soltar fios de prumo,de mover para baixo e para cima longas trinchas,respondem : - Para que não comece a destruição. E inquiridos se temem que assim que retirarem os andaimes da cidade comece a esboroar-se e a cair aos bocados, acrescentam à pressa, em voz baixa : - Não só a cidade.
E se,insatisfeito com a resposta,alguém aplicar o olho à greta de uma paliçada,vê gruas que elevam outras gruas,andaimes que revestem outros andaimes,traves que escoram outras traves. - Que sentido tem o vosso construir? - pergunta. - Qual é o fim de uma cidade em construção se não uma cidade? Onde está o plano que seguem,o projecto?
- Mostrar-to-emos assim que acabar o dia; agora não podemos interromper-nos - respondem.
O trabalho cessa ao pôr do sol. Desce a noite sobre a obra. É uma noite estrelada. - Eis o projecto - dizem.

As cidades Invisíveis,Italo Calvino
Sim,acredito em estrelas.

1 comentário:

Constança disse...

eu sei que acreditas