sábado, 1 de novembro de 2008

eu,tu,ele,nós..

Quando cheguei não conhecia ninguém. Sentei-me e parti à descoberta. No início tinha muito medo, a voz enfraquecia, não dava espaço à liberdade de criação, ganhava a timidez que nunca tinha tido. Devagar o grupo ficou mais pequeno, as linhas mais definidas, os jogos com mais sentido, os impulsos com mais certeza, e começou... Laços enrodilhados, partilhas simples com cada um que no fim se transformam (e ainda se estão a transformar) em gigantes bolas de neve onde cabem histórias que durariam dias a contar, trouxemos e partilhámos emoções, rimos, houve até alturas em que rimos até nos doer mesmo, chorámos, criámos. A energia que agora é presença habitual e que cresce sempre mais um bocadinho, acabava de nascer. Um simples toque no ombro que me tornou diferente, uma ida à máquina comprar maltesers, um abraço, momentos de lá de fora, de fora do palco, fora 'de casa', gargalhadas particulares em que nos rimos até à exaustão e que quem não faz parte deste nosso núcleo não entende, o prazer disso, o prazer de saber que 'para a semana há ensaio outra vez', a definição de prioridades, a naturalidade com que se recusa um jantar, uma festa de anos ou uma saída e a custo que essa recusa perdeu, o compromisso, a terapia de sermos livres e felizes, de viver em palco, quais sejam os carregos que trazemos às costas (e por vezes não são poucos), a ânsia por um ensaio depois de dois meses de descanso, os gritos, a experiência, que ganhamos tanto no palco como na rua, na vida, a habituação às rotinas de todos e de cada um, às birras de uns (e nossas também) , ao vocabulário próprio de outros (o nosso pequeno segredo público),os dias em que saturamos ,os dias em que empancamos, os dias em que damos saltos enormes, as tardes,os bocados de tarde em que evoluímos, em que aprendemos mais sobre nós dependendo do espelho que são os outros, os filmes, as histórias que deviam ter sido filmadas, os momentos de êxtase, de riso, de barraca, de histórias que compiladas dariam um filme de apanhados absolutamente brutal, ou alturas em que nós somos apanhados despercebidos, toda a ternura, toda a batalha, toda a partilha, toda a vida. Uma lista infinita de justificações para chegar a uma festa depois dum ensaio e não me conseguir libertar do mesmo pensamento, da concentração nas pessoas com quem partilho um chão de linóleo, um mesmo chão mas com buracos, e de não querer deixar os dias em que os buracos estão destapados, do perigoso saber que eu não era a mesma sem tudo isto, da inquietação de não acreditar que uma amiga que passei a ganhar seja a mesma pessoa que eu conhecia desde pequena como a tia fixe da minha amiga, o aconchego de ter ganho mais uma melhor amiga, o inesperado de viver o irreal, de viver cenas de novela com algumas destas pessoas, na vida real e a cores, o empenho e entusiasmo que transparece de tal maneira que pessoas doutras cidades se disponham a vir cá de propósito para ver a peça tão desejada por nós. Tenho o privilégio de fazer parte deste grupo e nasceu deste projecto um resultado tão grandioso, tão bonito, que gostava de poder ter o prazer de me sentar numa cadeira e jogar do outro lado, ser a plateia, e ver o produto final. Toda a ideia que está por detrás do que trazemos ao palco não passa mais do que vivemos cada vez que descemos as escadas da Casa da Cultura e entramos na sala da Bonifrates, de todo um processo de criação pura. Quando cá cheguei não conhecia ninguém, agora todos os dias está comigo um bocadinho destas treze pessoas, e eu sou delas e elas minhas porque todos nós somos de quem gostar muito de nós. Vamos a ele!

Xinduá




Ps: nunca esquecer que ser 'mete nojo' não quer dizer que meta nojo .